sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Sedentarismo e sua relação com a vida intrauterina



Comportamento sedentário durante a vida pós-natal é determinado pelo ambiente pré-natal (vida intrauterina) e exacerbado por uma dieta hipercalórica durante a vida.
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American Journal of Physiology (Regul Integr Comp Physiol) 285: R271–R273, 2003.
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Autor principal: P. Gluckman, FRS, Liggins Institute, Faculty of Medical and Health Sciences, Univ. of Auckland, Auckland, New Zealand (E-mail: pd.gluckman@auckland.ac.nz)
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Nos últimos anos, diversas pesquisas vêm tentando evidenciar uma correlação entre a vida intra-uterina do feto, por meio da dieta da gestante, e o modo de vida pós-natal dos filhotes. Já foi descoberta uma ligação dessa experiência intra-uterina e doenças cardiovasculares e metabólicas durante a vida. Agora, o objetivo dos cientistas é descobrir como esse ambiente fetal possui conseqüências -a longo prazo- nas patofisiologias endócrina e metabólica durante a vida adulta, também conhecido como programação fetal.
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A desnutrição materna durante a gestação leva a uma prole com problemas de obesidade, hipertensão, consumo exagerado de alimentos, elevadas taxas de insulina e leptina (hormônio relacionado com a saciedade), demonstrando uma clara resistência a esses hormônios, entre outros fatores de risco. O experimento em questão - publicado em 2003 no American Journal of Physiology - visa demonstrar como essa desnutrição materna afeta a locomotividade dos filhotes, ou seja, testar o quão sedentários são os filhotes submetidos a essa formação fetal adversa. Para tanto, fecundou-se um grupo de ratas Virgin Winstar, que foram separadas em dois grupos: um que recebeu alimentação à vontade (AD - ad libitum) e outro que recebeu apenas 30 % da quantidade de alimentos do primeiro grupo (UN – do inglês undernourished).
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Ao nascerem, os filhotes das ratas do grupo UN eram significativamente menores que os filhotes do grupo AD. Quando os filhotes foram desmamados, eles foram separados aleatoriamente em dois grupos (independente da dieta das progenitoras): um que recebeu uma dieta controle e outro que recebeu uma dieta hipercalórica. Nos dias 35, 145 e 420 do experimento, foi medida a atividade locomotora desses animais.
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Durante todas as idades analisadas, o grupo que nasceu de mães subnutridas foi significativamente menos ativo (mais sedentário) dos que o da prole que nasceu de mães com dieta normal, independente da dieta que esses filhotes receberam durante a vida pós-natal. Além disso, os ratos de mães subnutridas se alimentavam mais – ou seja, eram mais gulosos – que os de mães com nutrição normal.
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Esse experimento foi o primeiro a separar claramente os efeitos da vida pré-natal dos da vida pós-natal e demonstrar que o modo de vida pode sim ter uma relação com a vida intrauterina. E ainda mais, essa influência da vida fetal pode ser permanente, visto que esses resultados foram obtidos até em ratos com idade avançada. Isso demonstra uma característica evolutiva importante, visto que o ambiente gestacional reflete as características do meio externo e essa programação fetal pode influenciar no comportamento do animal de maneira positiva para adaptá-lo a essas condições adversas.
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A relevancia desses resultados -obtidos em ratos- em seres humanos é debatida neste artigo de 2003. Será que entre os fatores de risco para a obesidade no adulto (humano), poderia-se incluir a desnutrição da mãe do indivíduo? Como as alterações fisiológico-nutricionais na vida da progenitora seriam trasmitidas -do ponto de vista molecular- para o feto e "fixadas" por toda a vida adulta?
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Leia o artigo completo clicando abaixo:
http://ajpregu.physiology.org/cgi/reprint/285/1/R271
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Autores da resenha:
Vinicius Lacerda (estudante de Medicina da UnB) e Prof. MHL

Aspartame causa cancer ? (artigo de 2006)


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Enviromental Health Perspectives, volume 114, 279-385, 2006.

Autor principal: Morando Soffritti, Cesare Maltoni Cancer Research Center, European Ramazzini Foundation of Oncology and Environmental Sciences, Castello di Bentivoglio, Via Saliceto,
3, 40010 Bentivoglio, Bologna, Italy. E-mail: crcfr@ramazzini.it

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Primeira demonstração experimental dos efeitos carcinogênicos multipotenciais do aspartame administrado na alimentação de ratos Sprage-Dawley
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O consumo cada vez maior de adoçantes artificiais vem causando preocupação entre os consumidores desses produtos. Afinal, eles estão cada vez mais presentes nas dietas para controle da obesidade e diabetes, por exemplo, e várias pesquisas vêm tentando demonstrar que esses adoçantes possuem um potencial cancerígeno. Dentre eles, o mais atacado é o aspartame.
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O aspartame, ao ser metabolizado no trato gastrintestinal, libera metanol. Esse composto se transforma no fígado em formaldeído, que é comprovadamente um agente cancerígeno. Entretanto, diversas pesquisas foram realizadas para demonstrar de forma concreta esse efeito nocivo do aspartame, mas nenhuma delas foi estatisticamente significativa.
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Tendo em vista que a maioria dessas pesquisas não seguiu padrões rígidos pré-estabelecidos e tiveram um espaço amostral reduzido, o Centro de Pesquisas em Câncer Cesare Maltoni realizou um mega experimento utilizando centenas de ratos da espécie Sprague-Dawley. Esses animais foram separados e cada grupo recebeu uma dose progressivamente maior, de zero ppm até 100.000 ppm. O experimento durou até que o último roedor tivesse morrido de forma natural, o que difere dos outros experimentos do gênero. Enquanto os animais iam morrendo, foram retirados diversos cortes histológicos de vários órgãos, entre os mais importantes: pelve renal e ureteres, cérebro, nervos periféricos, sangue, medula óssea, epitélio olfatório, entre outros.
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Esses cortes foram analisados e foi constatada a presença de tumores e células cancerígenas dos mais diversos, como schwanomas, linfomas, leucemias, tumores cerebrais, etc. A proporção de câncer nos animais submetidos a doses elevadas de aspartame foi significativamente maior que no grupo controle (zero ppm), principalmente entre as fêmeas. Os resultados deram ênfase às leucemias e linfomas.
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Portanto, pela primeira vez um experimento sobre aspartame que seguiu normas rígidas demonstrou, de forma estatisticamente significativa, que animais submetidos a dietas com esse adoçante durante toda a vida tiveram incidência maior de câncer do que aqueles do grupo controle. Isso refuta a idéia de que esses adoçantes são perigosos para o consumo humano, e devem ser substituídos por outros sem esse potencial nocivo, como a sacarina, que já é amplamente utilizada.
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autor de resumo:
Vinícius Lacerda Ribeiro (Med 85) - aluno de Medicina da UnB

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Tema: Príons e infecção


Grupo de Príons e infecção (aspectos bioquímicos)
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Alunas: Ana Maria Zanatta Silva, Laíza Campos de Carvalho, e Gabriele Junqueira - todas do curso de Nutrição da UnB

Tema: Galactosemia (aspectos bioquímicos)


Grupo de Galactosemia
(BioBio 2007-2)
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Alunos:
Gustavo Henrique N. Fernandes (Nutrição)
Roberto Carlos Pareja (Medicina)
Daniel Miranda Galvão (Nutrição)

Tema: Vegetarianismo


Grupo de Vegetarianismo (aspectos metabólicos) - BioBio 2007-2
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Alunas: Alessandra Barreto da Silva (camisa branca) e Clarissa J. Sturzbecher. Ambas do curso de Nutrição da UnB.

Tema: Fenilcetonúria (ou PKU)


As meninas do grupo de PKU, todas do curso de Nutrição da UnB. O grupo teve excelente nota (9,6) - parabens !

Tema: Aspartame causa cancer ?


Este é o grupo de Aspartame, com 3 alunos de medicina, semestre 2007-2. O grupo defendeu a hipótese de que aspartame não causa cancer não concentrações normalmente utilizadas pelas pessoas.
Estudos com ratos mostram um cenário deferente, porem utilizaram concentrações de aspartame muito elevadas.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Grupo de Radicais Livres (2007-2)


Da esquerda para a direita (apenas os alunos de camiseta preta): Danilo Vilarinho, Rafael, Denis, Natália e Danillo Borges. O monitor-tutor da equipe radicalar está de camiseta azul.
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Mais uma apresentação de alto nível. Parabens ao grupo e ao monitor-tutor !

Extremos da Tolerância Humana (BioBio 2007-2)



Na imagem estão, da esquerda para a direita: Fernando Henrique (hipotermia e hipertermia), Igor (fome), Frederico (estresse), Mariana (grandes altitudes e hipóxia) e Lucas (vivendo e morrendo pelo etanol). O monitor da equipe é o Marcos (Med 85), de camisa preta.

O grupo deu um show de bola na apresentação !

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Grupo de Exercício - 2007-2

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Na foto, podemos ver, da esquerda para a direita: Cainara, Natalia, Bruna, Paula e Soraya - todas alunas do Curso de Nutrição da UnB.
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Do lado da Soraya está a monitora do grupo (de blusa preta), estudante de Medicina.
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O prof Marcelo Hermes gostou muito da apresentação do grupo - parabens !

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Grupo de Diabetes (BioBio 2007-2)

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Na foto, podemos ver (da esqueda para a direita): Fabyanne, ( ??), Rodrigo, Gisely e Yna.

Grupo de Neurotransmissores (BioBio 2007-2)


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Na foto estão (da esquerda para a direita): Emanuel, Juliana, João Paulo, Michaela e Sebastian. Clique na imagem para ampliar.

Grupo de Bioquímica da Obesidade (BioBio 2007-2)

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Na foto estão: Priscila (monitora, editora da prova de V-ou-F), Vitor, Leandro, Janaina, Guilherme, Leonardo e Carol (monitora do grupo de Obesidade).

Grupo de Colesterol (BioBio 2007-2)

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O grupo que apresentou o trabalho de Colesterol foi composto de alunas de Nutrição da UnB. São elas (de acordo com a ordem na foto): Maíra, Elaine, Stefanie, Babiana e Ana.

No meio das alunas está o monitor Diego, aluno de Medicina da UnB - turma 84.

Grupo de Corticóides e Hormônios da Tireóide


Os alunos, de acordo com a ordem na foto (clique na imagem para ampliar):
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Priscila, Pedro Morais, João, Thaiza e Pedro Amaral.
São todos do Curso de Medicina da UnB, e alunos de BioBio de 2007-2.

sábado, 3 de novembro de 2007

Físico discute a ciência e a PG no Brasil

Sociedade Brasileira de Física
Boletim [011/2007]
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Mais do mesmo
por Paulo Murilo Castro de Oliveira

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Colegas da SBF. Segue abaixo a resposta que acabo de enviar ao Diretor de Avaliação da CAPES, cujo conteudo gostaria de compartilhar com todos. O assunto é o mesmo de minhas duas últimas manifestações neste mesmo Boletim, de novembro de 2006 e outubro de 2007.Niterói, 29 de outubro de 2007
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Ao diretor de avaliação da CAPES
com cópia ao Boletim da Sociedade Brasileira de Física
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caro Professor Renato Janine Ribeiro
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Recebi sua simpática mensagem de agradecimentos e congratulações (ofício 25/2007/DAV/CAPES) pelo "excelente e criterioso trabalho realizado" ao julgar as teses de doutoramento candidatas ao prêmio CAPES de 2007. Devo informar, no entanto, que não participei desse julgamento. Certamente houve algum engano por parte da CAPES, e meu nome apareceu numa lista na qual não deveria constar. Compreendo perfeitamente se tratar de um episódio menor, uma falha no sistema automatizado de envio desse tipo de mensagens e ofícios, embora me tenha sido enviada em termos pessoais pelo Diretor de Avaliação da CAPES que certamente acompanhou o trabalho de avaliação e sabe quem o realizou efetivamente, mas foi pego na armadilha. Coisas da eletrônica moderna, cujos resultados devemos sempre ver com cautela e não adotar cegamente. Embora menor, este episódio me move a tecer aqui alguns comentários sobre o sistema geral de avaliação da CAPES e do CNPq (e consequentemente das demais agências de fomento e instituições acadêmicas do país).
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Outro exemplo de sistemas eletrônicos modernos são os programas de computador destinados a realizar a própria avaliação acadêmica, como esse SIR atualmente em uso pelo CTC da CAPES, embora alguns comitês de área da própria CAPES prefiram não adotá-lo. Não sei os detalhes de funcionamento de tal robô, mas certamente ele é alimentado por alguns dados de entrada, por exemplo o peso de cada publicação qualis A, B ou C na avaliação desejada. Certamente também, o resultado final dessa análise robótica depende da escolha dos dados de entrada, e reviravoltas mais ou menos arbitrárias no resultado final poderão ser obtidas num exercício de manipulação desses dados de entrada. Devo crer que tais resultados são tão confiáveis quanto os do sistema de envio automático de mensagens e ofícios da própria CAPES. Não acredito, por outro lado, que os resultados da avaliação robótica sejam mais confiáveis que aqueles obtidos pelo trabalho humano dos assessores, membros dos comitês de área da CAPES, em geral profissionais competentes e com a experiência acadêmica desejada para a função. No entanto, o robô foi usado recentemente pelo CTC, e modificou o resultado da avaliação dos cursos de pós-graduação feita anteriormente pelos citados comitês de área. Muitos cursos tiveram seus graus rebaixados a despeito da recomendação em contrário dos comitês de área. O robô, finalmente, sobrepuja os humanos.
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Em vez disso, o resultado da avaliação feita pelos comitês de área deveria ser analisado sem manipulações, na tentativa de dele se extrairem dados úteis. O fato de haver muitos cursos nos últimos níveis da escala tem um significado importante, ignorado e apagado na "renormalização" perpetrada a posteriori pelo CTC. Significa que esses cursos já se adaptaram às demandas que lhes foram induzidas pela CAPES em seu longevo e bem sucedido programa de avaliação. Significa que novos desafios devem ser oferecidos a esses cursos, para que diversifiquem seu horizonte de atividades e melhor se adaptem às necessidades do país. Em vez disso, a CAPES prefere colocar os cursos em competição mútua, sob os mesmos velhos desafios que já aprenderam a superar, e por isso mesmo se acumulam nas posições mais altas da escala. Nessa estratégia míope, há vários aspectos cruéis que ameaçam o programa de avaliação da CAPES como um todo, depois de tantos anos de sucesso contínuo.
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Um desses aspectos é que não se trata de uma política de inclusão, diversificação e colaboração. Ao contrário, a tendência é a concentração do saber acadêmico, tanto do ponto de vista institucional quanto regional. A diversificação e descentralização desejadas não podem ser induzidas pela associação de um curso de alto nível numa região central com outro iniciante ou de mais baixo rendimento numa região periférica, como incentiva a CAPES, porque depois a própria CAPES põe estes cursos a competir um contra o outro, quando o segundo também atinge o nível mais alto. É uma associação assimétrica desde o nascimento, assimetria que se eterniza pela competição induzida onde não deveria ser.
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Outro aspecto nocivo dessa competição erroneamente induzida pelas agências de fomento é o aparecimento, com freqüência cada vez maior, de práticas condenáveis que vão desde pequenos deslizes até plágios e fraudes. Alguns desses casos têm se tornado públicos ultimamente, devido à posição de seus personagens. Infelizmente a freqüência de tais faltas é muito maior do que nos faz supor o conhecimento de apenas um ou outro episódio.
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Vou citar alguns exemplos, em ordem crescente de gravidade. O líder de um laboratório permite que seu nome seja incluído como autor de todas as publicações daquele laboratório, porque assim vai haver no grupo um pesquisador nível IA do CNPq, exigência de vários programas das agências de fomento, exigência esta baseada na mesma estratégia míope de competição. Outra opção muito difundida é se convidar algum pesquisador IA a emprestar seu nome ao projeto de pesquisa alheio. Há também a chamada corda-de-caranguejo, um pesquisador faz o trabalho de pesquisa, inclui colegas na lista de autores, e com isto recebe regalias da instituição (licenças para viagens, carga horária de aulas reduzida, etc). Há também a manipulação do número de professores do curso de pós-graduação, tira-se fulano e inclui-se sicrano no relatório deste ano. No ano seguinte inverte-se. O curso de graduação da instituição é sempre prejudicado. Trabalhos idênticos ou cópias ligeiramente maquiadas de um mesmo autor ou grupo de autores são submetidos e muitas vezes publicados em diferentes revistas. Autores copiam trechos de publicações alheias, muitas vezes trechos de importância marginal, outras vezes de importância central. Trabalhos inexistentes são colocados na plataforma Lattes, muitas vezes apagados após a avaliação específica do interessado. No nível mais grave vem a leniência das agências de fomento com a ocorrência de tais práticas.
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Talvez o pior aspecto resultante da estapafúrdia competição induzida pelas agências de fomento seja a péssima formação oferecida à grande parte dos pós-graduandos. Posso dar meu testemunho pessoal como participante de inúmeras bancas de concurso na área de Física das melhores instituições do país. Os candidatos, em geral, apresentam ótimas listas de publicações científicas nas melhores revistas. No entanto fracassam em massa quando lhes são propostas questões básicas sobre conceitos fundamentais que qualquer professor de Física deve necessariamente dominar. Isto acontece porque o estudante é muitas vezes treinado para realizar com sucesso apenas aquelas tarefas diretamente ligadas com as publicações que resultarão de seu trabalho, em colaboração com seu orientador. A formação geral, sólida, nos conceitos fundamentais de sua disciplina, é relegada a segundo plano frente à premência da publicação. Os estudantes são aprendizes de feiticeiro a repetir involuntariamente a prática profissional deturpada que as agências de fomento induziram nas mentes de seus orientadores. É uma perigosíssima bola de neve.
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Todo esse cenário se torna dramático quando leio no texto assinado pelo Diretor de Avaliação da CAPES, publicado no Jornal da Ciência, entre outras declarações ufanistas, a de que "a produção científica brasileira cresceu nove vezes em 20 anos". O que significa esta cifra? Qual percentagem desse aumento corresponde realmente a inovações científicas? Qual é proveniente apenas da prática de imitação? Qual percentagem corresponde à multiplicação artificial de artigos num mesmo tema? Qual percentagem corresponde a plágios, fraudes, etc? Como têm crescido estas percentagens, e como esse crescimento se relaciona com a política indutora da competição entre pesquisadores e entre cursos de pós-graduação?
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Um outro sistema eletrônico/robótico introduzido por nossas agências de fomento é a Plataforma Lattes, que pessoalmente classifico como uma farsa (pobre Professor Lattes, que merecia homenagem melhor). Tenho feito uma pergunta simples a mais de uma centena de colegas acadêmicos, a maioria bolsistas de pesquisa do CNPq: Você sabe quantas pessoas têm seu currículo depositado na Plataforma Lattes? A resposta é invariavelmente "Não sei". Resposta esperada, quando formulada por cientistas, porque esse número é completamente irrelevante para o desenvolvimento da ciência no país. Então insisto: Dê um palpite! Como resposta, recebo cifras tipicamente na casa dos 10 mil, 20 mil. O recorde foi 100 mil. Recentemente o CNPq anunciou em tom igualmente ufanista que a Plataforma Lattes ultrapassou a incrível marca de um milhão de currículos depositados. Escrevo por extenso, um milhão, para evitar mal-entendido. Tal cifra é pelo menos uma ordem de grandeza superior à mais otimista estimativa do número de pessoas que participam do trabalho de pesquisa científica no país, incluindo aí os bolsistas de pesquisa do CNPq, outros tantos pesquisadores produtivos que merecem a mesma bolsa, mas o sistema está saturado, os bolsistas de pós-graduação, os de iniciação científica, os técnicos de laboratório, etc. A farsa, infelizmente, não é apenas numérica. O CNPq obviamente não tem condições de gerenciar a veracidade das informações veiculadas na Plataforma Lattes. São de responsabilidade do usuário, anuncia o CNPq para se livrar de sua própria responsabilidade. No entanto, sendo estas informações veiculadas pela agência oficial de fomento à pesquisa científica, passam a ser padrão de avaliações não só do próprio CNPq como das diversas outras agências de fomento (CAPES inclusive) e instituições acadêmicas. A chancela do CNPq empresta aparente credibilidade às informações contidas na Plataforma Lattes, mas o CNPq não pode se responsabilizar por sua veracidade. Cientes desta arapuca, os dirigentes do CNPq resolveram contratar uma firma americana para "certificar" os currículos depositados na Plataforma Lattes, seja lá qual for o significado do termo, "certificar". Quem "certifica" o serviço prestado pela citada firma americana? Talvez, se a Plataforma Lattes se restringisse aos verdadeiros participantes do esforço científico nacional (todos, embora poucos), o CNPq pudesse, ele próprio, verificar a veracidade das informações, e então estaria prestando um verdadeiro serviço ao país.
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Finalizo por enfatizar que estas minhas críticas devem ser encaradas dentro do espírito construtivo segundo o qual as formulei. Meu objetivo é que o sistema de avaliação científica do país, capitaneado por CAPES e CNPq, seja modernizado, que não se limite às políticas vigentes de "conta-paper" e "conta-parâmetro-de-impacto", já obsoletas no atual estágio da atividade científica no país. Funcionaram muito bem num estágio anterior, enquanto essa agora ufanisticamente propalada "competitividade" não se fez necessária devido ao pequeno número de pessoas envolvidas. A continuação dessas políticas, que sequer são recicladas, gera, agora, todas as distorções que descrevi acima, e muitas outras. É preciso que se mude qualitativamente a forma de avaliar a atividade científica no país, não aumentar cegamente os mesmos desafios numéricos de sempre, mais do mesmo.
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Atenciosamente
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Paulo Murilo Castro de Oliveira

Para onde trabalho como referee ?

Referee for Brazilian or international scientific journals
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Eventual referee work:
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Life Sciences Journal (USA): in 1997 and 2004

Experimental Biology On-Line (Germany): in 1999

International Journal of Biochemistry & Cell Biology (USA): in 2002

Journal of the Brazilian Chemical Society (Brazil): in 2002

Archives of Environmental Contamination and Toxicology (USA): in 2002 and 2003

Journal of Experimental Marine Biology and Ecology (USA): in 2004

Pharmacological Research (Italy): in 2004

Journal of Shellfish Research (USA): in 2006

Free Radical Biology & Medicine (USA): in 2006

Journal of Herpetology (USA): in 2007
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Continuous referee work:
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Química Nova (Brazil): since 1997

Brazilian Journal of Medical and Biological Research: since 1997

Comparative Biochemistry and Physiology (Canada): since 1998

Journal of Fish Biology (UK): since 2001

American Journal of Physiology: Regul. Integ. Comp. Physiol. (USA): since 2002

BBA - General Subjects (Holland): since 2003

Journal of Experimental Biology (UK): since 2004

Aquatic Toxicology (Finland): since 2005

Genetics and Molecular Biology (Brazil): since 2006

American Journal of Physiology: Endocrinol. Metabol .(USA): in 2006

Journal of Comparative Physiology-B (USA/Germany): since 2006

Molecular and Cellular Biochemistry (Canada): since 2006

PLoS One (USA): since 2007
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Referee for granting agencies (Ad-Hoc consulting):

In Brazil:
CNPq, FAPESP, FAPDF, CAPES and PADCT

Elsewhere:
National Science Foundation (NSF, USA): since several years ago

Israel Science Foundation: in 2006

ANPCyT (Argentina): in 2006

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Fraude na pesquisa e no ensino

Texto de Dora Porto, Antropóloga
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Falar sobre fraude em ciência implica em definir primeiro o que deve ser considerado fraude. Para evitar grandes elocubrações a respeito pode-se sintetizar essa idéia segundo a definição oficial de fraude que implica em uma ação cujo objetivo é, deliberadamente, enganar alguém. Assim, o que seria enganar os outros, também pode variar conforme os objetivos pretendidos. Portanto, para pensar em fraude em ciência é preciso pensar no que, de fato, pretende a ciência e como as instituições de ensino preparam aqueles que devem alcançar esse objetivo.
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Reproduzindo as características do processo inato de aprendizado, por mimesis ou imitação, o sistema de ensino, desde as primeiras séries, baseia-se na reprodução do conhecimento e não na originalidade das idéias construídas a partir da assimilação do conhecimento. Tal prática, tida como "normal" e, em muitos casos, referendada com menções laudatórias, torna-se especialmente perversa em tempos do "control C control V", quando quase qualquer pessoa tem acesso a milhares de textos publicados sobre um assunto e, com um corta e cola eficiente, além de um bom dicionário de sinônimos à mão, pode produzir em questão de horas (ou minutos, dependendo do cuidado que se tenha) um texto "original", segundo os critérios aceitos na maior parte das universidades. E qualquer um que já tenha dado aulas sabe o quanto isso é freqüente. A leitura cuidadosa de trabalhos acadêmicos, especialmente nas turmas grandes, remete em muitos casos a um número restrito de sites, dos quais a informação foi retirada e, mais ou menos "transformada" em palavras do autor do trabalho.
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A pressão para publicar também colabora para agravar esse problema. Como o desempenho dos pesquisadores, o acesso à verba para pesquisa e os critérios de progressão funcional nas instituições às quais estão vinculados estão associados à publicação, a necessidade de publicar muito acaba por se tornar imperativa. Na área das ciências humanas essa pressão traz resultados ainda mais nefastos pois as revistas de peso adotam critérios editoriais voltados às ciências exatas ou biológicas, relacionados ao tamanho e formado artigo, bem como à metodologia adotada na pesquisa que, prioritariamentedeve ser quantitativa. Esse rol de critérios revela-se circunstância extremamente desfavorável às características das pesquisas na área das ciências humanas e gera um tipo distinto de problema, que não chega a ser uma fraude, mas, algumas vezes deixa no pesquisador sensação similar. Para cumprir as exigências das revistas e conseguir publicar o pesquisador terá, muitas vezes, que recortar tanto seu trabalho, pinçando um aspecto isolado de seus resultados, que acaba por perceber que o mesmo deixa de fazer sentido. Assim, nesses casos, ainda que o pesquisador não seja de fato um fraudador, muitas vezes se sente como tal em relação à extensão e profundidade de seu próprio trabalho.
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Além desses aspectos há ainda uma outra gama de considerações que precisam ser encaradas. Há quase 30 anos, quando publicava poesia independente e vendia na noite, escrevi um livrinho chamado S/A, título pouco compreendido porque, na verdade, o que pretendia dizer com isso era que as idéias não podem ser reduzidas à condição de propriedade, uma vez que circulam entre as pessoas, sendo coletivamente construídas. Todas as grandes idéias e, até mesmo, a idéia de usar palavras como ferramentas de comunicação, só foram possíveis e eficazes porque foram compartilhadas. Imagine se sob o signo da propriedade privada cada ser humano tivesse desenvolvido sua própria linguagem, seu próprio sistema de signos e valores, suas próprias regras para o convívio com os demais e suas leis? Com certeza não estaríamos aqui hoje e, pior, é quase certo que nossa espécie sequer estaria sobre a face daTerra. Para o bem ou para o mal, todas as grandes idéias, que levaram a descobertas ou invenções, deram certo porque foram compartilhadas. Quase tudo que usamos no cotidiano remonta a alguma descoberta tecnológica que nossos ancestrais fizeram a milhares de anos: do fogo à domesticação das plantas e animais. Lembrando que isso hoje ultrapassa o cafezinho que você pode estar tomando enquanto lê (ou o iogurte, leite, etc), mas estende-se a roupas, artefatos, vacinas e remédios.
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Porém, se a linguagem, falada ou escrita, é a mais contundente prova de que partilhar é essencial (imagine viver em um mundo em que é impossível perguntar até mesmo "foi bom para você?"), quando se trata das coisas nossa lógica se altera. Vivendo sob o imaginário da propriedade privada, que naturaliza, inclusive, a propriedade do corpo (que deixa de ser Eu e passa a ser meu) não é difícil entender que a questão da fraude acaba intimamente relacionada ao reconhecimento da propriedade. Assim, mais do que flagrar opesquisador inescrupuloso, que se apodera de dados que não são produziu ou aquele que falseia seus dados para publicar uma inverdade retumbante, a questão da fraude parece relacionada à questão da propriedade, negando a imagem que desenha o conhecimento como a soma dos resultados de centenas de milhares de anões que, com seus erros e acertos, formam o grande corpo do conhecimento.
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Porém as descobertas mais significativas, inclusive na ciência, são -obviamente - aquelas cujos resultados são amplamente partilhados por populações diferentes em todo planeta. A vacina contra poliomielite prova isso. Assim a pergunta volta ao ponto inicial? À reflexão sobre o discurso que sustenta a ciência, de que produz descobertas para o bem da humanidade, não seria, em si mesmo uma fraude? Afinal, o mundo globalizado o prova, nunca vivemos com tanto aporte científico, tanta tecnologia e tanta exclusão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A concentração do conhecimento

Resenha de BARROS, Fernando - A tendência concentradora da produção de conhecimento no mundo contemporâneo (Brasília: Paralelo 15 – Abipti, 2005, 307 p.)
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por: Profa. Maria Lucia Maciel
(IFCS/UFRJ)
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No relatório do Banco Mundial, Knowledge for Development (1999), o seguinte trecho sintetiza de forma aguda o problema atual da concentração do conhecimento:
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Knowledge is like light. Weightless and intangible, it can easily travel the world, enlightening the lives of people everywhere. Yet billions of people still live in the darkness of poverty - unnecessarily.
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Muitos autores têm chamado atenção, nos últimos anos, para a questão da concentração geográfica do conhecimento e para o mito da chamada sociedade do conhecimento (ver nota de rodapé). O maior mérito do trabalho de Fernando Barros neste livro, resultante de sua tese de doutorado, é o de traduzir essa problemática em dados concretos e análises cuidadosas relevantes à realidade dos países periféricos, e especialmente para o Brasil.
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Apoiando-se em fontes de dados trabalhados pelo Observatoire des Sciences et Techniques-OST e baseados em relatórios de OCDE (Principais Indicadores C&T), UNESCO, EUROSTAT e INED, o autor demonstra os altos índices de concentração de investimentos em ciência e tecnologia (C&T), assim como de instituições, de pesquisadores e de sua produção, na América do Norte, na Europa e no Japão. Mas o autor também desagrega os dados por países e por áreas do conhecimento, além de entrar na complexa questão dos resultados em termos de inovação tecnológica, na qual os dados que demonstram a concentração são ainda mais contundentes. Para apoiar sua análise, o autor conduziu ainda uma série de entrevistas com especialistas brasileiros e internacionais dessa área, cujo roteiro encontra-se no anexo do livro.
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O primeiro capítulo apresenta seu quadro teórico de análise da produção e distribuição de conhecimento na atualidade e aponta as principais tendências contemporâneas nesse campo, resultantes da revolução científico-tecnológica dos últimos trinta anos. O segundo descreve quantitativa e qualitativamente como essas tendências se concretizaram nos países mais desenvolvidos. O terceiro faz um panorama da ciência e da tecnologia nos países em desenvolvimento, focando mais especialmente os casos de China, Índia e Brasil. O capítulo seguinte retrata as desigualdades científicas e tecnológicas mundiais no contexto da globalização, mostrando que as distâncias entre países são bem maiores na tecnologia do que na ciência. No último capítulo, o autor desenvolve seu argumento sobre a tendência à concentração do conhecimento no mundo contemporâneo e destaca o papel do Estado nos processos nacionais que contribuem para configurar a atual distribuição geográfica do conhecimento. Nas conclusões, Barros sintetiza seus argumentos e aponta as perspectivas para o futuro.
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Merece especial atenção a análise de séries históricas que se, por um lado, confirmam as origens históricas e estruturais dessa tendência à concentração, por outro também indicam “desvios” interessantes nessa tendência: o primeiro, no período após a segunda guerra mundial; e o segundo, nas três últimas décadas.
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No primeiro caso, houve um movimento de expansão das atividades científicas e tecnológicas de forma menos desigual entre os diferentes estados nacionais. Dessa forma, as contribuições ao desenvolvimento da ciência, ainda que em pequenas proporções, passaram a ter origem mais diversificada. No Brasil, vimos nesse período do pós-guerra um grande esforço institucional e financeiro que gerou, entre outros, o CNPq e a Capes.
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Mas a crise capitalista do final dos anos 1970 e as mudanças ocorridas com o processo de globalização da economia, segundo o autor, afetaram profundamente os países em desenvolvimento, onde as atividades científicas e tecnológicas dependiam basicamente do Estado. Sabemos como os anos 1980 e 1990 testemunharam uma redução no esforço de desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil, cujos efeitos se fazem sentir até hoje em alguns aspectos.
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O segundo momento interessante (só o tempo dirá se é mais um “desvio” da história ou se é uma nova tendência que se afirma) diz respeito às três últimas décadas. Se é verdade, como demonstra Barros, que a distância entre os países ditos centrais e os menos desenvolvidos (como a maioria dos países africanos) continua aumentando, seguindo a tendência histórica, por outro os dados apresentados no livro também indicam uma leve dispersão da produção científica e tecnológica. Com a constatação do papel central de C&T para o desenvolvimento, em meio às radicais transformações que colocam a produção e apropriação da informação e – principalmente – do conhecimento como fatores cruciais dos processos econômicos e sociais no mundo contemporâneo, vários países vêm procurando investir (tanto recursos materiais quanto imateriais) no avanço científico e tecnológico.
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É o caso, por exemplo, dos países que o autor denomina de “intermediários”, como o Canadá, Austrália, Nova Zelândia, entre outros, que conseguiram atingir um grau de capacitação técnico-científica e padrões de desenvolvimento semelhantes aos encontrados nos países líderes. Da mesma forma, é digno de nota o resultado obtido nos saltos qualitativos observados na Coréia do Sul, em outros novos países industrializados (NPI) da Ásia – que já foram chamados de “tigres asiáticos” – e em alguns países membros da União Européia, como Espanha, Finlândia e Irlanda, o que contribui significativamente para uma realidade menos polarizada.
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Mais relevante ainda – para o nosso caso específico, pelo menos – é a ascensão no cenário internacional de países emergentes como China, Índia e Brasil. A tal ponto que o tema do momento nas reuniões internacionais de especialistas da área é o novo conjunto denominado “BRICS” – que reúne as iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Estes seriam os países de maior desenvolvimento potencial no século XXI, segundo alguns. É claro que há imensas diferenças entre essas cinco configurações sócio-políticas. Sobretudo, talvez, o fato de que Índia e China estão conseguindo avançar muito mais no campo do desenvolvimento tecnológico do que o Brasil, por exemplo, enquanto o nosso país tem tido mais sucesso no avanço científico do que na tecnologia.
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Mas o que me chama mais atenção ao longo de todo o livro e particularmente no relato (e nos dados) desses casos de sucesso é o que eles têm em comum. Tanto nos países “intermediários” quanto nos NPI e nos novos emergentes, o fator crucial que parece alimentar o potencial de “desviar” a tendência é a ação do Estado. Como diz o autor, a mudança ocorre “por meio de políticas incisivas que podem levar a um processo de maior desconcentração”.
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Assim como ocorreu em alguns países no pós-guerra, as mudanças mais recentes observadas por exemplo na Coréia, na China e na Índia foram promovidas por políticas estatais fortes e consistentes, de longo prazo. O Japão, aliás, já tinha demonstrado isso muito antes e de forma contundente. Isso não implica ignorar a ação de forças econômicas presentes em cada sociedade e as correntes de interesses do mercado associadas aos avanços na produção tecnológica – e que ainda não se expressaram significativamente no Brasil. A idéia de Sistema Nacional de Inovação refere-se justamente ao conjunto integrado de esforços públicos e privados nessa direção. Mas os exemplos e os dados mostram claramente que mesmo a inovação tecnológica promovida por interesses privados responde, em grande parte, a estímulos colocados por um ambiente macro-econômico e uma política de estado em que os incentivos à produção justificam os riscos e os esforços – e que também ainda não se expressaram significativamente no Brasil...
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Em suma, apesar da “tendência concentradora” do título do livro, que pode dar a impressão de uma mensagem pessimista do autor, encontram-se também no seu trabalho os caminhos alternativos que, segundo ele, “poderão emergir da práxis social” – e política, diria eu – “e conduzir a outros horizontes”.
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Para concluir, vale a pena acrescentar ainda um comentário, inclusive como sugestão para trabalhos futuros.
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Há, obviamente, contradições inerentes à idéia, muito difundida, de que o conhecimento é cada vez mais accessível e disseminado – ao mesmo tempo em que ele é cada vez mais privatizado e, portanto, mais concentrado. O argumento, que tem raízes clássicas nas teorias que postulam a mudança como sendo gerada e movida a partir das próprias contradições inerentes a cada momento histórico, é produtivo em pelo menos dois sentidos. Em primeiro lugar, ele nos instiga a novas problematizações e perspectivas sobre o nosso tempo que desvendam atores, relações e tensões em muitos casos insuspeitados. Em segundo lugar, as próprias incertezas e instabilidades institucionais características da nossa contemporaneidade podem sugerir os caminhos da ação social e política mencionados por Fernando Barros. Não estamos, evidentemente, em período de estabilidade de instituições, normas e regras consolidadas – muito pelo contrário. Descortinam-se assim iniciativas sociais e políticas inéditas de países e coletividades em todos os níveis (internacional, nacional, local) que indicam possibilidades diversas de estratégias e políticas propícias à mudança.


Nota de rodapé: Ver particularmente CASSIOLATO, LASTRES e MACIEL (org) Systems of Innovation and Development (Edgar Elgar Publ., 2003) e STEHR, N. “Da desigualdade de classe à desigualdade de conhecimento”, Rev. bras. Ci. Soc., 2000, 15(42).

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Nome e renome - por Marcelo Leite

Nome e renome
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por Marcelo Leite
Caderno Mais! - Folha de SP
7 de outubro de 2007
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Existem no Brasil 27 instituições cujos pesquisadores publicaram pelo menos cem artigos em periódicos científicos internacionais de primeira linha, como "Nature" ou "Science", em 2005. Segundo levantamento de Rogério Meneghini na base de dados Web of Science, duas universidades paulistas estão no topo da lista: USP (4.170 artigos) e Unicamp (1.569).
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Nada de muito novo aí. Todo mundo sabe que USP e Unicamp ocupam a linha de frente, ao lado de UFRJ (1.267 artigos), Unesp (1.166), UFRGS (971) e UFMG (875), para ficar na casa do milhar. Quantidade de produção, porém, não é o único indicador de excelência acadêmica.
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Meneghini estuda esses indicadores há anos e se tornou um especialista em "cientometria", como se diz. Ele pesquisou também o impacto desses artigos todos, medido pelo número de citações que angariaram. O raciocínio é que as contribuições científicas mais importantes são também aquelas que outros pesquisadores incluem nas suas notas de rodapé.
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Com base nas duas quantidades, Meneghini obteve a média de citações por artigo em cada instituição, um indicador razoável de sua capacidade de produzir ciência relevante. Neste caso, o ranking se altera consideravelmente. Em primeiro lugar aparece agora o Instituto Butantan, de São Paulo, cujos 135 artigos do ano 2005 geraram até o mês passado um total de 408 menções (média de 3,02 citações por trabalho).
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Em seguida vêm Unifesp (2,94), USP (2,89) e -surpresa- UFSM (2,80). Já ouviu falar? Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. De lá saíram 267 artigos em 2005, mais que do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, com 214) e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz, com 229), nomes com os quais o leitor deve estar mais familiarizado.
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Por falar em nomes, não é de todo improvável que as instituições mencionadas venham a questionar o levantamento com cifras divergentes obtidas na mesma Web of Science. Bases de dados são bases de dados - computadores e programas que só localizam aquilo que o freguês mandar procurar. Se pesquisar "Univ São Paulo", vai dar com 3.689 artigos; se "USP", com 561.
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Se a soma 4.250 - e não 4.170, como no primeiro parágrafo - soa estranha, mais estranha ainda é a razão por trás dela: a instituição pode aparecer de maneira diversa na afiliação institucional indicada pelos autores de um mesmo artigo. Nem eles se preocuparam em padronizar a referência, nem os revisores do periódico corrigiram a discrepância óbvia.
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No caso da Unicamp, Meneghini arriscou três grafias: "Unicamp" (692 artigos), "Univ Estadual Campinas" (1.080) e "State Univ Campinas" (241). É pouco provável que rankings internacionais, como o da Universidade Jiao Tong de Xangai incensado pela revista "Economist", levem em conta essas variantes nos nomes, prejudicando o renome, ou pelo menos a visibilidade, das instituições brasileiras.
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Com seus 4.170 artigos em 2005, a USP não chega nem aos pés da campeã norte-americana Harvard (9.003 trabalhos). Tampouco chega a fazer feio diante da vice britânica Cambridge (4.748). Sua média de 2,89 citações por artigo, porém, não alcança um terço da de Harvard (9,91). Tal escore foi obtido com quase 90 mil menções na literatura científica à usina acadêmica instalada às margens do rio Charles, em Cambridge, Massachusetts (EUA). É mais que o dobro de todas as 27 do ranking nacional -juntas. Com o nome que for.